Se Os Católicos Estão Certos Sobre Maria, Por Que Se Fala Tão Pouco Sobre Ela Na Bíblia?

29/03/2025

Para muitos protestantes, a devoção a Nossa Senhora é o maior obstáculo para se tornarem católicos. Até mesmo muitos católicos admitem que têm dificuldade em se relacionar com Maria ou não conseguem entender por que a Igreja parece tão obcecada por ela. Por trás dessa confusão, pode haver uma pergunta simples que se esconde por trás de todas as outras: Se os católicos estão certos sobre Maria, então por que o Novo Testamento quase nunca a menciona?

Essa pergunta pode representar um obstáculo intelectual considerável tanto para católicos quanto para protestantes. Claro, pode haver (de acordo com os católicos, pelo menos) alguns argumentos exegéticos inteligentes que mostram a razoabilidade da Imaculada Conceição ou da Virgindade Perpétua. Mas parece que essa abordagem ainda evita o desafio muito maior, ou seja, a ausência quase total de Maria nas Escrituras. Novamente, se ela é tão importante, por que é mencionada tão pouco?

Aqui precisamos recuar um pouco. Ao contrário da crença popular, não é verdade que Nossa Senhora quase não aparece na Bíblia. Na verdade, ela aparece várias vezes em todos os quatro Evangelhos e é retratada como uma figura importante não apenas na concepção e no nascimento de Jesus, mas também em Seu primeiro milagre e em Sua crucificação. Além disso, nos Atos dos Apóstolos, ela aparece presente no Cenáculo em Pentecostes, e pode-se argumentar que ela é a figura da rainha celestial descrita em Apocalipse 12.

É certo que Maria está ausente das epístolas do Novo Testamento, mas isso não pode ser interpretado como um ataque à visão católica. Por um lado, há muitas doutrinas e devoções importantes que São Paulo e os outros escritores de cartas simplesmente não abordam. A doutrina da divindade do Espírito Santo, por exemplo, não é declarada explicitamente em nenhuma parte das epístolas do Novo Testamento, mas, mesmo assim, é uma doutrina que devemos aceitar com base em uma leitura das Escrituras como um todo, especialmente conforme interpretada pela tradição viva da Igreja.

Outro ponto que vale a pena lembrar aqui é que muitas das epístolas do Novo Testamento foram escritas antes dos Evangelhos e, portanto, quando olhamos para o Novo Testamento como um todo, na verdade são os livros posteriores como Lucas, Atos, João e Apocalipse que nos dão a palavra final sobre Nossa Senhora - e em todos esses livros, ela desempenha um papel importante!

Isso leva a outro ponto básico, que é o fato de que, muitas vezes, a qualidade é mais importante do que a quantidade quando se trata de interpretar as Escrituras. O importante não é tanto o número de vezes em que algo é mencionado, mas sim a maneira como é apresentado. Aplicando essa rubrica a Nossa Senhora, descobrimos rapidamente que ela é retratada repetidas vezes como uma figura de enorme significado. (Embora não tenhamos espaço aqui para desenvolver detalhadamente as evidências bíblicas marianas, o leitor é incentivado a explorar mais essas questões por meio das postagem em nosso site na sessão Mariologia).

Com base nas profundas conexões entre o Antigo e o Novo Testamento, o estudioso bíblico Brant Pitre mostrou de forma persuasiva como Lucas e João se esforçam para destacar Maria como a "Nova Eva", ou seja, como a mulher profetizada de Gênesis 3,15, cujo "sim" radical a Deus serve para desfazer o pecado de Eva. Quando compreendidos por meio dessa lente, os textos do Evangelho que mencionam Maria são subitamente impregnados de um novo significado. Por exemplo, a decisão de Jesus de se dirigir a ela como "mulher" na festa de casamento em Caná (ver Jo 2,4), ou no Calvário (ver Jo 19,26), é uma referência direta à passagem de Gênesis 3,15.

Portanto, o que uma leitura atenta dos textos marianos frequentemente revela é que as passagens que parecem mencionar Maria apenas de forma breve ou superficial são, na verdade, declarações teologicamente carregadas sobre o papel fundamental que Deus pediu que ela desempenhasse na história da salvação. Encontramos outros exemplos ricos em lugares como Lucas 1, onde Maria é descrita pelo anjo Gabriel como "cheia de graça" (Lc 1,28), ou por Isabel como "bendita entre as mulheres" (Lc 1,42). Esses não são epítetos normais!

Observe especialmente como Gabriel não diz: "Alegra-te, tu que estás cheia de graça", mas simplesmente: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor é contigo!" Em outras palavras, o termo "cheia de graça" (kecharitomene em grego, que significa algo como "ter sido cheia de graça em plenitude") é usado não apenas para descrever Maria, mas para denotar sua própria identidade. Isso é muito significativo! Da mesma forma, "bendita entre as mulheres" é uma forma hebraica do superlativo, que significa "a mais bendita das mulheres".

São Lucas também tem o cuidado de registrar o título "a mãe do meu Senhor" (Lc 1, 43), que Isabel aplica a Maria. Os estudiosos consideram isso significativo porque, nos escritos de Lucas, a denominação "Senhor" é usada de forma intercambiável com "Deus". Portanto, a decisão da Igreja primitiva de se referir a Maria como Theotokos, ou "Mãe de Deus", já encontra apoio nos Evangelhos.

Outros textos marianos com implicações de longo alcance são aqueles que a retratam como a nova Arca da Aliança. Assim como a Arca no Antigo Testamento era a morada de Deus, também no Novo Testamento Maria se torna o tabernáculo vivo no qual a Santíssima Trindade habita. Assim como a morada de Deus no Antigo Testamento era coberta pela nuvem de glória (ver Ex 24,15-16; 40,34-38; 1Rs 8:10), da mesma forma é dito a Maria que ela será coberta com a sombra do Espírito Santo (ver Lc 1,35).

Da mesma forma, quando Lucas deixa cair o detalhe ostensivamente aleatório de que, após a visitação, Maria ficou com Isabel por "cerca de três meses" (Lc 1, 56), ele está claramente fazendo uma referência a 2 Samuel 6,11, onde a Arca é descrita como tendo ficado na casa de Obede-Edom por três meses. E assim como o Rei Davi saltou de alegria diante da Arca (ver 2Sm 6,15-16), da mesma forma João Batista saltou de alegria no ventre de Isabel ao ouvir a voz de Maria (ver Lc 1,41-42).

No livro de Apocalipse, a identificação de Maria como a nova Arca da Aliança é mais ou menos explícita. Compare lado a lado o versículo final do capítulo 11 e os dois primeiros versículos do capítulo 12:

O templo de Deus que está no céu se abriu, e apareceu no templo a arca da sua aliança. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e uma grande tempestade de granizo. Um sinal grandioso apareceu no céu: uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas;

2estava grávida e gritava, entre as dores do parto, atormentada para dar à luz. (Apocalipse 11,19;12,1-2)

Embora os comentaristas protestantes muitas vezes tentem interpretar a mulher nessa passagem como sendo Israel ou a Igreja, é óbvio que ela também pode ser entendida como Maria, pela simples razão de que ela está dando à luz o Deus-Homem (ver Ap 12,5)! Mas se essa é Maria, então a estreita conexão entre ela e a Arca parece inegável.

Não é preciso dizer que muito mais pode ser dito sobre todas essas questões. O objetivo deste artigo não é encerrar todos os argumentos exegéticos sobre o papel de Maria, mas simplesmente responder à pergunta de por que ela não é mencionada com mais frequência nas Escrituras. Para isso, devemos perceber, em primeiro lugar, que ela é de fato bastante mencionada nos Evangelhos; e, em segundo lugar, que a maneira como ela é apresentada nos Evangelhos (e em Atos e Apocalipse) é extremamente significativa.

Para que não nos esqueçamos, Maria é aquela cuja perfeita submissão à vontade de Deus ajuda a desfazer o pecado de Eva (ver Lc 1,38), aquela que é repleta de graça (ver Lc 1,28), aquela que é coberta pela sombra do Espírito Santo (ver Lc 1,34), aquela que é a mais abençoada entre as mulheres (ver Lc 1,42), aquela a quem todas as gerações chamarão de bem-aventurada (ver Lc 1,48), aquela cuja intercessão maternal leva Jesus a iniciar Seu ministério de milagres (ver Jo 2,5), aquela a quem Jesus confia Seu discípulo mais querido (ver Jo 19,27) e aquela que é retratada como uma mãe espiritual para todos os fiéis (ver Ap 12,17).

Em resumo, Maria recebe um status muito mais elevado do que qualquer outra figura humana na Bíblia e, como tal, ela deve ser levada a sério por todos os cristãos.

Autor: Clement Harrold

Original em inglês: St. Paul Center