Quão Difícil É Cometer Um Pecado Mortal?

01/03/2025

As Escrituras falam de dois tipos de pecado: "pecado mortal" e 'pecado não mortal' (1 João 5, 16-17). O último deles, a Igreja chama de pecado venial (ou perdoável). Então, o que torna um pecado mortal?

Três condições devem ser atendidas:

(1) deve ser um "pecado cujo objeto é matéria grave"

(2) deve ser cometido com "a plena consciência" e

(3) deve ser feito com "propósito deliberado".

Caso contrário, você estará diante de uma ação que, embora ainda seja objetivamente errada*, ou é venialmente pecaminosa ou não é pecaminosa de forma alguma. Mas qual é a probabilidade de nossos pecados atenderem a todos os três critérios?

É Impossível Cometer um Pecado Mortal?

De acordo com alguns padres e teólogos, quase sim. Por exemplo, o falecido sacerdote jesuíta, Pe. Jim Rude, escreveu um ensaio em 2016 intitulado Mortal Sins Are Very Difficult to Commit (Pecados Mortais São Muito Difíceis de Cometer), no qual ele relembrou seu hábito de se confessar todos os sábados durante sua adolescência. Em vez de recordar com carinho essa prática piedosa (explicitamente incentivada pela Igreja), ele lamentou: "Aquelas confissões eram bastante tristes, pois geralmente eram mencionados os pecados mortais, mas, olhando para trás, acredito que nunca houve pecados mortais", argumentando que "eu tinha apenas quinze anos e não tinha a menor ideia do que era um pecado mortal".

A própria descrição do Pe. Rude depõe contra isso: quando adolescente, ele estava fazendo algo que sabia que não deveria estar fazendo e, posteriormente, confessando. Como ele disse, "geralmente eram mencionados os pecados mortais". Portanto, é difícil acreditar que ele "não tinha a menor ideia do que era um pecado mortal". Mas, de acordo com o Pe. Rude,

Um pecado mortal não é simplesmente uma ação maligna, uma ação que é verdadeiramente maligna, mas é uma ação que deve ser realizada com o mais profundo entendimento do relacionamento de Deus com a situação do praticante. O praticante precisa entender quem é Deus, seu amor supremo e eterno, e precisa dizer a si mesmo: "Eu sei quem é Deus e o que ele deve significar para mim, e não estou nem aí. Dá o fora Deus! Vou roubar, fazer mal a alguém ou fazer sexo, não importa o que aconteça".

Essa é uma distorção grosseira - e quase uma inversão - do ensinamento real da Igreja. Na visão de moralidade do Pe. Rude, parece que a porta é larga e o caminho fácil que leva ao céu. Mas isso é o oposto polar do que Jesus diz em Mateus 7,13. Se o pecado mortal só é possível para alguém "com o mais profundo entendimento do relacionamento de Deus com a situação do praticante", então os descrentes e os espiritualmente mornos aparentemente seriam salvos, já que não têm esse entendimento.

É difícil conciliar a ideia do Pe. Rude de que o pecado mortal exige uma rebelião consciente de Deus com as próprias palavras de Jesus sobre o assunto. Prevendo suas palavras de condenação aos condenados, Jesus diz que eles dirão: "Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos?" (Mateus 25, 44). Ou seja, muitos dos condenados não terão pensado que seu ódio ao próximo era um ódio a Deus. São João adverte contra essa ilusão, dizendo: "Se alguém disser: "Amo a Deus", mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê" (1  João 4, 20).

A posição defendida pelo Pe. Rude foi explicitamente condenada repetidas vezes pela Igreja, especialmente por São João Paulo II. Por exemplo, em Reconciliatio et Paenitentia, ele adverte que "há-de evitar-se reduzir o pecado mortal a um acto de «opção fundamental» contra Deus — como hoje em dia se costuma dizer — entendendo com isso um desprezo explícito e formal de Deus e do próximo". Ou seja, a Igreja nunca ensinou (e, de fato, nega explicitamente) que o autor do pecado tenha que dizer "Dá o fora Deus!" para que seu pecado seja mortal. Afinal de contas, o papa explicou,

De igual modo, há-de evitar-se reduzir o pecado mortal a um ato de «opção fundamental» contra Deus — como hoje em dia se costuma dizer — entendendo com isso um desprezo explícito e formal de Deus e do próximo. Dá-se, efectivamente, o pecado mortal também quando o homem, sabendo e querendo, por qualquer motivo escolhe alguma coisa gravemente desordenada. Com efeito, numa escolha assim já está incluído um desprezo do preceito divino, uma rejeição do amor de Deus para com a humanidade e para com toda a criação: o homem afasta-se a si próprio de Deus e perde a caridade. A orientação fundamental pode, pois, ser radicalmente modificada por atos particulares.

A Verdade Sobre o Pecado Mortal

Se eu sei que um curso de ação é gravemente pecaminoso e o escolho livremente, eu escolhi algum pecado em vez de Deus. Não preciso fazer um discurso interno dizendo a Deus para ir embora, porque já fiz isso com minhas ações… mesmo que eu tente me iludir achando que posso servir a dois senhores. João Paulo II considerou esse erro grave o suficiente que ele repetiu sua advertência na Veritatis Splendor, explicando detalhadamente por que essa é uma perigosa perversão da teologia moral católica.

Mas o Pe. Rude não tinha apenas um padrão quase impossivelmente alto para "plena consciência". Sua ideia de consentimento também era exagerada a tal ponto que ele imaginava que o assassinato de sacerdotes poderia não ser mortalmente pecaminoso. Isso pode soar como uma interpretação pouco caridosa de suas ideias, mas esse é seu exemplo real:

Mas também é preciso que o executor aja com total liberdade. Vejo artigos nos noticiários hoje em dia, como o da criança de doze anos que assassinou um sacerdote de oitenta e dois anos enquanto ele rezava a missa, e me pergunto o que o garoto estava realmente fazendo, o que ele estava realmente pensando. Por mais horrível que tenha sido sua ação, simplesmente não consigo acreditar que o garoto tenha cometido um pecado mortal segundo os padrões católicos. E olho para as pessoas que cresceram com abusos horríveis durante a infância, pobreza ou experiências contínuas com gangues, e me pergunto se elas são realmente livres para agir de forma tão perversa.

É verdade que "a imputabilidade e a responsabilidade de uma ação podem ficar diminuídas ou suprimidas pela ignorância, inadvertência, violência, medo, hábitos, afeições imoderadas e outros fatores psíquicos ou sociais" (CIC 1735). Esse é um dos motivos pelos quais não devemos condenar os outros por suas ações: não sabemos que tipo de fatores podem estar ocorrendo nos bastidores. Mas também não devemos fazer prejulgamentos na direção oposta, como se aqueles que crescem na pobreza não tivessem mais livre-arbítrio ou ação, ou mesmo a capacidade de pecar.

João Paulo II nos lembra em sua Exortação Apostólica Pós-sinodal Reconciliato et Paenitentia que "alguns pecados, quanto à sua matéria, são intrinsecamente graves e mortais", atos que "por si mesmos e em si mesmos, independentemente das circunstâncias, são sempre gravemente ilícitos, por motivo do seu objeto. Esses actos, se forem praticados com suficiente advertência e liberdade, são sempre culpa grave". Se assassinar um padre enquanto ele está rezando a missa não atende a esse critério, é difícil dizer o que atenderia.

Onde isso nos deixa?

Muito simplesmente, como penitentes, temos "obrigação de confessar, na sua espécie e número, todos os pecados graves, de que se lembrar após diligente exame de consciência, cometidos depois do baptismo e ainda não directamente perdoados pelo poder das chaves da Igreja nem acusados em confissão individual". E se você não tiver certeza se é um pecado mortal ou não, confesse-o, pois "Recomenda-se aos fiéis que confessem também os pecados veniais" (Código de Direito Canônico, cân. 988). E mesmo que você não tenha cometido nenhum pecado mortal do qual tenha conhecimento, adquira o hábito de se confessar mesmo assim! Afinal de contas, "o pecado venial deliberado e não seguido de arrependimento, dispõe, a pouco e pouco, para cometer o pecado mortal" (CIC 1863).

Por sua vez, a Igreja, em suas Normas Pastorais sobre as Absolvições Coletiva, lembra que "no que se refere à prática da confissão frequente ou de "devoção", os sacerdotes não dissuadam dela os fiéis" e "deve-se evitar absolutamente que a confissão individual fique limitada unicamente aos pecados graves, uma vez que isto privaria os fiéis do excelente fruto da confissão e depreciaria a boa fama dos que se aproximam individualmente do sacramento".

Por fim, se você tiver bons motivos para acreditar que cometeu um pecado mortal e se confessar, isso não é (como diz o Pe. Rude) "muito triste". Pelo contrário (como Jesus diz), é motivo de grande celebração, pois "have­rá maior júbilo no céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento" (Lucas 15:7).


* A culpabilidade moral é apenas um aspecto da questão. As ações são pecaminosas porque prejudicam a nós e aos outros e, portanto, mesmo quando fazemos a coisa errada inocentemente (e, portanto, sem culpa moral), ainda assim podemos estar prejudicando a nós mesmos. Tomemos como exemplo um casal que foi enganado (pela cultura ou até mesmo pelo padre) a acreditar que não há problema, ou até mesmo que é moralmente responsável, em usar contraceptivos. Eles podem ser inocentes de qualquer culpa moral, mas o dano causado ao casamento e à família permanece.


Autor: Joe Heschmeyer

Original em inglês: Catholic Answers